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cronicas da vani



“Já decidiu a especialidade?” (continuação)

           

Depois desse pedido do meu pai, decidi que vou escolher uma especialidade só para ter uma resposta pronta e ninguém mais ficar perturbando. Se fosse seguir  os conselhos das pessoas...

“Faz geriatria, pra você cuidar de mim daqui a uns anos”.

“Faz cirurgia plástica, pra você me deixar ‘inteirona’”.

“A profissão do futuro é medicina ortomolecular. Acho que tem tudo a ver com você”.

            “Faz cirurgia porque é isso que dá dinheiro”

            Só de implicância eu não vou escolher nenhuma dessas especialidades. Esse povo quer que eu atenda todo mundo de graça no futuro, pode? É uma exploração que vem com aviso prévio. Estava na dúvida entre dizer que eu vou ser patologista (que só trabalha com biópsia ou órgãos), intensivista (que trabalha em UTI e não tem consultório) ou sanitarista (médico que trabalha com vigilância sanitária, epidemiologia, proteção do meio ambiente...). Mas ainda estava achando que alguém poderia achar essas especialidades interessantes.

Então optei por dizer que eu serei legista. Isso mesmo, vou passar a vida fazendo necropsias, emitindo laudos, fazendo exames de corpo de delito, enfim. Não há nada mais gratificante do que aprender a salvar vidas durante seis anos e depois trabalhar com mortos ou dizer qual a distância do tiro que a pessoa levou.

Antes que me fuzilem de comentários dizendo que eu sou preconceituosa, que desmereço as especialidades e outras baboseiras, vou logo me defender: gosto, cada um tem o seu, e é por isso que eu admiro a medicina: por ter um leque imenso de especialidades que, certamente, agradarão alguém.

Quando disse ao meu pai “Pode dizer por aí que eu quero ser legista. Já decidi mesmo.” ele disse que é mais chato dizer isso do que dizer que eu ainda não me decidi. E nunca mais tocou no assunto.



Escrito por Vânia Medeiros às 17h15
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“Já decidiu a especialidade?”

           

Meu pai disse que era pra eu escolher logo qual especialidade eu vou seguir porque todos os amigos dele ficam perguntando e fica chato ele dizer que eu ainda não me decidi. Era só o que me faltava.

            Desde a época que decidi fazer medicina as pessoas já ficavam perguntando “o que você quer ser?”. Ainda não tinha nem decidido direito se queria mesmo ser médica e já tinha que ter escolhido a especialidade. Mas tudo bem, eu levava na esportiva, as pessoas queriam ter assunto e aproveitar para dar opinião.

Entrei na faculdade de medicina por um mero acidente de percurso (história contada na crônica “Um pé no hospital, outro no jornal”) e, apesar disso, já tinha decidido que carreira seguir dentro da profissão: otorrinolaringologia (que, pela extensão do nome, pode ser chamada apenas de “otorrino”) ou ortopedia. Nos quatro primeiros meses, quando estava estudando anatomia e fisiologia dos ossos e músculos, percebi que jamais iria conseguir trabalhar com osso pro resto da vida. É muito chato e não combina comigo. Foi a minha primeira frustração na faculdade: uma das poucas coisas que eu achava legal era uma droga.

Meses depois arrumei um estágio na neurocirurgia e comecei a, de fato, achar interessante. Durante os dois anos que eu fiquei nesse estágio sempre dizia às pessoas que seria neurocirurgiã. Os comentários eram hilários: “Nossa! Mas isso é carreira de gênio!”, “Neurocirurgia é muito difícil, você tem certeza?”, “Vais passar mais dez anos estudando, mas depois a grana compensa o tempo perdido”. Realmente, a residência em neurocirurgia dura cinco anos; com mais seis da faculdade totaliza onze anos de estudo. Comecei a pensar se gostava tanto assim de neurocirurgia.

Parei de dizer que queria fazer neurocirurgia ano passado, quando comecei a estudar técnica operatória. Assistir cirurgia é legal, ser assistente também. Agora estudar a técnica é pior do que estudar ortopedia. E não são só as técnicas das cirurgias neurológicas não, é a técnica que qualquer cirurgia. Ainda tinha a opção otorrino escondida na manga, ou seja, ainda não estava decepcionando os amigos do meu pai.

A minha última esperança de carreira também se esvaiu meses depois, quando entrei na cadeira de otorrino. Nossa, não é nada do que eu esperava. Não chega a ser chato, mas está longe de ser interessante. Desde essa época eu ando indecisa sobre a minha especialidade e digo para quem me pergunta que eu ainda não decidi. O problema é que ninguém entende que uma pessoa estar indecisa no 4º ano da faculdade não é nada anormal. Pode até ser meio constrangedor, mas anormal não é.

Atualmente, quando me perguntam “Já decidiu a especialidade?” eu digo que ainda não sei bem o que eu quero, mas sei exatamente o que eu não quero (o que não deixa de ser verdade). As pessoas costumavam ficar satisfeitas só com essa resposta, mas de uns tempos pra cá começaram a perguntar “Mas do que é que você não gosta?”. Esse pessoal é mesmo insatisfeito! Quando eu dizia que não gostava de ortopedia, otorrino, dermatologia, cardiologia, pneumologia, cirurgia, geriatria, endocrinologia, oftalmologia, ginecologia e obstetrícia o comentário era sempre o mesmo: “Mas essas especialidades são tão legais...” (sempre com um ar de frustração).



Escrito por Vânia Medeiros às 17h14
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