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cronicas da vani



Eu não sei cantar!

 

Sempre tive vontade de ser cantora. Não sei se é porque eu sempre convivi com música em casa, ou porque comecei a tocar piano cedo, ou porque é sonho de qualquer criança (apesar do sonho de ser modelo nunca ter passado pela minha cabeça).

            Gostaria e ter a voz da Elis Regina ou da Marisa Monte, são as vozes mais bonitas na minha opinião. Mas já quis ter a voz da Paula Toller, Sandy, Adriana Calcanhotto, Leila Pinheiro, Dolores (The Cranberries), Maria Bethânia...

            O problema é que, infelizmente, a minha voz é horrorosa, o que torna impossível qualquer tentativa minha de ser cantora. E problema maior que esse é explicar para os possíveis patrocinadores do meu livro que eu não sou cantora, e sim escritora!

            Já visitei 297259720 empresas em Belém em busca de patrocínio. Em 70% dessas empresas, recebi a mesma justificativa para não ser patrocinada: “Nós estamos interessados em patrocinar algo mais grandioso do que um livro, como um CD, por exemplo. Se você tivesse uma banda...”. Faltam até palavras para descrever o que eu sentia ouvindo uma coisa dessas.

            Tudo bem, vamos admitir que o lançamento de um CD normalmente é mais grandioso do que o de um livro, e isso faz com que o patrocinador apareça mais, divulgue melhor a empresa, etc, etc. Então o que será dos escritores sem editora? Daqueles que estão começando a trilhar uma carreira? De ver o sonho de publicar um livro estar quase virando realidade quando é aprovado em uma Lei de incentivo à cultura e depois indo por terra quando as empresas só querem patrocinar CD´s?

            Não tenho nada contra os cantores, muito pelo contrário, até queria ser uma. Mas se eu tenho um talento (se é que eu tenho) é o de escrever, e não de cantar. Por que o meu espaço tem que ser menor que o dos outros? Os escritores são uma classe inferior, que não merecem patrocínio, divulgação, coquetel de lançamento e retorno do público? Parece que sim.

            Fico muito feliz quando alguém consegue lançar seu livro, mesmo que seja a pior porcaria do mundo. Tem gente que compra, lê e gosta, oras! O livre arbítrio existe para isso. Esse ano que tava pesquisando no jornal, sabe quantas pessoas com menos de 30 anos lançaram livro esse ano em Belém? Três, sendo uma delas uma menina de 8 anos. Que bom que deram crédito pro que ela escreve.

            Mesmo levando um sonoro “não” nas empresas que eu visito, não vou desistir. Meu certificado de incentivo vale até dezembro, e até lá eu vou continuar gastando dinheiro imprimindo projeto, livro, tirando xerox, gastando gasolina e paciência nas empresas. Não é assim que se realiza um sonho? Lutando, caindo, levantando e lutando de novo? Então, qualquer dia desses eu posso encontrar um patrocinador. E isso só vai acontecer se eu correr atrás.

            Tenho uma amiga que me disse assim: “Você sabe quantas vezes eu dei errado na vida? Umas três mil. E quantas vezes eu dei certo? Umas quatro vezes”. E isso é verdade mesmo, a gente mais erra do que acerta na vida. Eu sei que não errei querendo ser escritora ao invés de cantora. Posso ter errado em ter nascido no Brasil, um país que não gosta de ler, que diz que a leitura é importante, mas não faz nada para melhorar o nível intelectual da população, que chama de alfabetizado a pessoa que só sabe escrever o nome, ou que saber identificar as letras, mas não sabe interpretar um texto.

            Na próxima encarnação quero ser cantora, e de brega ainda por cima. Aqui em Belém só as bandas de brega conseguem lançar CD todo ano, com apoio de várias empresas. E quem quiser sobreviver como escritor, é melhor virar compositor de brega. Dá mais futuro e reconhecimento.



Escrito por Vânia Medeiros às 08h07
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