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cronicas da vani



Não gosto mais desse blog. Sei lá, impliquei. Vou mudar pro www.cronicasdavani.blogspot.com

Essa semana vou aprender a mexer e faço a grande estréia no novo blog na próxima segunda.

Adeus, mundo cruel.



Escrito por Vânia Medeiros às 19h47
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Hoje, pela primeira vez, perdi um paciente. O nome dele era Hugo, ele tinha leucemia e estava lutando há dois anos contra a doença. Em alguns momentos ele venceu, em outros ele perdeu, assim como nas batalhas da vida. Ele lutou, lutou como gente grande, como um verdadeiro guerreiro.  Mas o câncer venceu, infelizmente.

Hugo foi meu paciente por mais de um mês. Ele me odiava. Todo dia, quando eu ia examiná-lo, ele me xingava, fazia cara feia, chorava, enfim. Mas nos dias em que eu não ia, a mãe dele dizia q ele ficava perguntando por mim. Nunca reclamei do fato de que examinar o hugo era uma dificuldade porque ele não colaborava. Coitado, imaginem como era difícil pra ele, praticamente morar no hospital, não ter forças pra brincar e correr como as outras crianças, sendo picado por agulhas quase que diariamente e sentindo dor, muita dor. Se é difícil para um adulto, imagine para uma criança.

Durante o período que ele foi meu paciente, teve vários altos e baixos. Por várias vezes eu pensei que ele não iria sobreviver àquele dia, e, de repente, ele melhorava e voltava a reclamar e gritar comigo. Um dia eu roubei a banana que ele tava comendo, só de brincadeira, e ele ficou com ódio, claro (eu devolvi depois, tá?). No outro dia ele tava comendo banana de novo e, quando eu cheguei, ele apontou para o criado-mudo e tinha uma banana pela metade ali, que a mãe dele disse que ele deixou pra mim. Ele me odiava, mas pelo menos me dava comida.

A última vez que eu falei com ele foi antes da páscoa. Ele nem era mais meu paciente, mas eu ia lá todos os dias saber como andavam as coisas. Aí ele me disse “tá doendo minha perninha”. Aquilo me cortou o coração. Se eu pudesse transferir toda a dor dele para mim eu teria feito isso naquele momento. Ele estava já cheio de analgésicos, mas, mesmo assim, ainda estava ruim. Disse pra ele que iria viajar e que voltaria em alguns dias. Se eu soubesse que era a última vez, talvez tivesse ficado mais um pouco, mas ele já tinha estado muito pior, sei lá, nem suspeitei mesmo.

Recebi a notícia da morte dele por uma mensagem de celular enquanto estava em Belém. Na hora eu neguei a informação, agi como se nada tivesse acontecido, como se fosse um trote. Quando cheguei no hospital no dia seguinte, procurei minha amiga que havia mandado a mensagem e ela confirmou. Nossa, parece que tinham tirado o meu chão. Quis saber o que tinha acontecido, todos os detalhes, tudo mesmo. Soube que ele teve uma infecção e, como quase não tinha células de defesa, não resistiu. E a mãe dele não estava mais lá, nem pude conversar com ela.

Perder um paciente é uma das piores dores que um médico pode sentir. Fiquei muito mal nesse dia, é como perder um amigo, um membro da família. Conversei com a minha chefe sobre isso, perguntei se ela, após tantos anos de profissão, ainda ficava mal com a morte dos pacientes. Ela disse que sim, que isso independe de ter perdido um ou mil pacientes, que depende da personalidade de cada um, que eu, por exemplo, tenho um envolvimento natural com os pacientes, e é impossível acompanhar alguém todos os dias por mais de um mês e não se apegar à pessoa. Nós não somos deuses, conseguimos salvar as pessoas até um certo ponto. Perdemos alguns pacientes, mas salvamos muito mais.

Agora, pensando melhor a respeito, vejo que não foi o câncer que ganhou do Hugo, e sim o contrário. Onde ele está agora, não há doenças, nem dor na perninha, nem quimioterapia. Ele agora é um anjo, um anjo guerreiro, que lutou muito bravamente e merece descansar.

Fica com Deus, Hugo.

 

 



Escrito por Vânia Medeiros às 17h33
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